Ir às compras, manter o varejo aquecido e salvar o crescimento do país. Foi o que os brasileiros fizeram ao longo de 2011 e voltam a repetir nos primeiros meses de 2012. Mas a conta do consumo em alta tem seu preço, a inadimplência, que se mostra cada vez mais salgado. Pela primeira vez em três anos, o índice de maus pagadores acelerou em janeiro frente ao mesmo período do ano anterior segundo dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). A elevação foi de 2,91%. Percentual que é ainda mais preocupante se considerado o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor que, na relação anual – janeiro de 2012 sobre janeiro de 2011 – cresceu nada menos que 16,6%.
O resultado dá sequência a um ano marcado pela elevação do índice, que segundo a Serasa Experian subiu 21,5% em 2011 contra 2010, maior alta registrada desde 2002. A expansão generalizada também foi apurada pelo Banco Central, que registrou avanço da taxa de consumidores com dívidas superiores a 90 dias em 1,6 ponto percentual, encerrando dezembro em 7,3%, maior patamar em dois anos. Especialistas avaliam que o cenário terá efeitos sobre a política econômica do governo federal que, na tentativa de retomar o crescimento do país – que deve fechar o ano de 2011 abaixo de 3% – coloca suas fichas no consumo das famílias.
Para o coordenador do departamento de economia do Ibmec, Márcio Salvato, o estímulo exacerbado ao crédito fatalmente será comprometido. “O governo agora está com um problema já que não consegue mais estimular as compras com concessão de crédito, já que as pessoas estão com a renda comprometida, e com a baixa da taxa Selic, cujos efeitos começam a perder força”, pondera.
Segundo o especialista, a inadimplência está entre os fatores primordiais para definição das taxas de juros para o consumidor. “Estima-se que pelo menos um terço dos juros na ponta são influenciados pela capacidade das pessoas em cumprirem seus compromissos”, afirma. Não é à toa que os bancos não reduzem as tarifas para empréstimo pessoal e financiamentos na mesma proporção em que a taxa referencial da economia, a Selic, sofre cortes.
Freio
O professor do MBA em economia empresarial da FGV/IBS Mauro Rochlin acredita que a escalada da inadimplência poderá até impedir que novas medidas de estímulo às compras sejam adotadas. “Uma delas seria a redução do compulsório que permitiria alavancar ainda mais o crédito. Esta ação pode ser postergada ou nem mesmo adotada diante deste cenário”, afirma. O que não significa que o governo vai reconsiderar a retomada das medidas macroprudenciais adotadas no fim de 2010 que visavam reduzir o consumo na tentativa de controlar a inflação. “Como as taxas de crescimento andam ruins, o governo tem todos os motivos para não adotar essas medidas”, avalia.
Para atingir a meta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 4% a 5%, fatalmente o governo deverá adotar novas ferramentas, entre elas tributária. “Necessariamente terá que abrir mão da arrecadação em alguns setores e garantir novos subsídios à economia”, afirma Salvato.
Apesar do sinal amarelo aceso, a economista da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) Ana Paula Bastos garante que o comportamento é comum para o período. “Nos três primeiros meses do ano é normal ter um pico. Isso porque, com a falta de planejamento orçamentário, as pessoas acumulam as dívidas de fim de ano com os compromissos de janeiro”, avalia. A expectativa é de que em abril os índices voltem a cair.
Disposição para comprar
Se depender do otimismo dos consumidores, o dinamismo do mercado interno está garantido. Segundo Índice de Expectativas das Famílias (IEF) divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os brasileiros avaliam como positiva a realidade socioeconômica do país. O índice passou de 67,2 em dezembro para 69 pontos em janeiro, o mais alto já registrado desde o início da apuração, em agosto de 2010. O resultado é mais gente indo às compras.
Bens duráveis estão entre os principais itens da lista já que 64,4% das famílias acreditam que agora é um bom momento para adquiri-los, contra 57,4% em dezembro. O pilar que sustenta os bons números está no emprego, já que 80,7% dos responsáveis pelos domicílios no país sentem-se seguros em sua ocupação atual. Mas a aquisição de novos bens, muitas vezes esbarra na restrição de crédito, empecilho que o almoxarife Alexandre Luiz de Souza pretende eliminar.
Com duas dívidas que o acompanham desde 2006 e mantêm seu nome no cadastro de maus pagadores da CDL, Alexandre vai procurar as empresas para renegociar os débitos pendentes. O mesmo acontece com o pedreiro Paulo Antônio Grizante Pacheco, que vai atrás da empresa para negociar a quitação de sua dívida. “Ainda quero estudar para me profissionalizar em um curso de tecnólogo em construção de edifícios”, conta. “Mas para isso preciso limpar o nome, já que tenho a intenção de usar recurso do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies)”, acrescenta.
Ao comprar uma torradeira para dar de presente de casamento, a autônoma Maria Conceição Azevedo admitiu que não deveria gastar. “Não estou podendo”, afirma. Para facilitar o pagamento, teve que dividir o valor de R$ 69 em três parcelas. “Mas não tem juros”, garante a consumidora que reconhece que o nome já foi parar no SPC.
Ir às compras, manter o varejo aquecido e salvar o crescimento do país. Foi o que os brasileiros fizeram ao longo de 2011 e voltam a repetir nos primeiros meses de 2012. Mas a conta do consumo em alta tem seu preço, a inadimplência, que se mostra cada vez mais salgado. Pela primeira vez em três anos, o índice de maus pagadores acelerou em janeiro frente ao mesmo período do ano anterior segundo dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). A elevação foi de 2,91%. Percentual que é ainda mais preocupante se considerado o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor que, na relação anual – janeiro de 2012 sobre janeiro de 2011 – cresceu nada menos que 16,6%.
O resultado dá sequência a um ano marcado pela elevação do índice, que segundo a Serasa Experian subiu 21,5% em 2011 contra 2010, maior alta registrada desde 2002. A expansão generalizada também foi apurada pelo Banco Central, que registrou avanço da taxa de consumidores com dívidas superiores a 90 dias em 1,6 ponto percentual, encerrando dezembro em 7,3%, maior patamar em dois anos. Especialistas avaliam que o cenário terá efeitos sobre a política econômica do governo federal que, na tentativa de retomar o crescimento do país – que deve fechar o ano de 2011 abaixo de 3% – coloca suas fichas no consumo das famílias.
Para o coordenador do departamento de economia do Ibmec, Márcio Salvato, o estímulo exacerbado ao crédito fatalmente será comprometido. “O governo agora está com um problema já que não consegue mais estimular as compras com concessão de crédito, já que as pessoas estão com a renda comprometida, e com a baixa da taxa Selic, cujos efeitos começam a perder força”, pondera.
Segundo o especialista, a inadimplência está entre os fatores primordiais para definição das taxas de juros para o consumidor. “Estima-se que pelo menos um terço dos juros na ponta são influenciados pela capacidade das pessoas em cumprirem seus compromissos”, afirma. Não é à toa que os bancos não reduzem as tarifas para empréstimo pessoal e financiamentos na mesma proporção em que a taxa referencial da economia, a Selic, sofre cortes.
Fonte: Estado de Minas, publicado em 10 de fevereiro de 2012